
Vera de
Vilhena

Gavetas e Gavetinhas
Pormenor de "O Contador Antropomórfico", 1936, S. Dalí
Adivinhas que tenho em gaveta, para partilhar com os pequenos leitores aqui, nas oficinas de escrita, ou num outro cantinho onde nos encontremos...
Gavetinhas, coisas vossas, coisas minhas
Adivinhas
ADIVINHA I
O meu corpo é moreno
Mas jamais encontra o sol
Estendo sobre meia terra
Um gigantesco lençol
As crianças, quando chego,
Fazem o seu ar tristonho
Está na hora de ir dormir
E aconchegar-lhes os sonhos
Nunca me sinto sozinha
Pois a companhia é rara
Infinitas são as estrelas
Que me salpicam a cara
Tão contrários são os dias
À minha própria existência
Sonham tantos junto a mim
A aliviar consciências.
Quem sou eu?
ADIVINHA II
Tenho um cheiro adocicado
E nunca ando sozinho
Logo atrás de mim vem outro
Se for bom ainda é pouco
As avós gostam de mim
E os netos mais ainda
Com açúcar e farinha
Poucos ovos, margarina
Tenho um número no meu nome
E os aplausos pedem bis
Se ainda não adivinharam
É porque o destino não quis.
Quem sou eu?
ADIVINHA Nº3
Tenho o nome de um bicho
Mas sei que bicho não sou
E um rabo bem comprido
Que um qualquer senhor me pôs
Eu não sou bailarina
Mas danço o dia inteiro
Tenho umbigo vermelho
E custo algum dinheiro
Passo o dia no tapete
Mas juro, não sou gato
Nem sequer cão sonolento
Nem vassoura, nem sapato
Se já sabem quem sou eu
Não digam a ninguém
Calados como o bicho
Que esta expressão contém.
Quem sou eu?
ADIVINHA Nº4
Sou como um lampião
E cheia sem alimento
Tenho quarto, mas não durmo
Sou peça do firmamento
Já me pisaram o rosto
Vieram no Deus da Luz
Número onze, e Diana
Minha irmã, que vos seduz
Sempre que há casamento
O fel é meu inimigo
Há doçura na viagem
O que acontece, não digo
As marés deixam-se ir
Sob minha influência
Sou amada por poetas
Mas também pela ciência.
Quem sou eu?
ADIVINHA Nº5
Estamos sempre em todo o lado
Se a luz não nos faltar
Se a escuridão nos chega
Não há como nos achar
Em dias de aguaceiro
Causamos sensação
Misturadas, somos muitas
Mas separadas já não.
Somos três, somos sete
Damos alegria à vida
Se a menina nos confunde
Pode acabar mal vestida
Uma tem a cor de um fruto,
Outra a de uma flor
Com uma derradeira rima
Vão achar-nos, sim senhor.
ADIVINHA Nº6
Eu tenho cinco filhos
Mas não lhes dou de comer
Gosto de os ver brincar
Para não adormecer.
Ando sempre em apertos
Desde a mais tenra idade
Há apertos e apertos
E os meus são de amizade
Sou a mãe de muitos gestos
Em mil comunicações
Usam-me a torto e direito
Para mostrar emoções
Ferramenta dos artistas
E de mil trabalhadores
Cozinheiros, massagistas
E até senhores doutores
Manuseiam tantos livros
E ainda não adivinharam?
Já vos disse quem sou eu
Se calhar, não repararam!
ADIVINHA Nº7
Eu morava numa casa
Com raízes e aves belas
Até que homens me cortaram
P’ra de mim fazer janelas
Guardo versos de poetas
E uma história de encantar
Fujo do fogo e da água
Mas gosto de viajar
Quando alguém brinca comigo
Posso ser um avião,
Uma bola ou um chapéu
Ou até um foguetão
Num escritório sou furada
E não me dou com o giz
Com bonecos de mil cores
Fico muito mais feliz
Vou ao vento, embalada,
Sem casa onde morar
Ou podem ter dó de mim
E vida nova me dar
Quem Sou Eu?"